Sinto-me cansado. Cansado de sobreviver, cansado de querer, cansado de ser. Tolhido por pensamentos que não param, ideias aos milhares, inconcretizadas... Sinto-me vazio, oco, e a cada fôlego que poluo com o fumo do cigarro esvai-se na esperança de me preencher. Como se pensasse que o fumo me pudesse encher, sabendo que é impossível. As pessoas com quem falo, têm todas uma opinião. Devia deixar-me de tretas, viver a vida dizem umas. Outras falam-me em assumir responsabilidades. Sei no entanto que os concelhos que damos aos outros não são mais do que coisas que achamos que deveríamos ter feito num ou outro ponto da nossa própria vida. Estou só nas minhas decisões, tal como estamos todos. A isso se chama liberdade de escolha... Cada um tem que decidir por si, escolher, ganhar e perder... são as leis da vida.
Vi num filme, que falava de sonhos, uma frase mais ou menos assim. "As vezes somos como astros, em que tudo gravita em nosso redor, mas por vezes quando isso falha, a alternativa é escolher algo bom e gravitar em torno desse algo". Em certa altura de minha vida, fui como um astro (pelo menos do meu ponto de vista) em que muito gravitava em torno de mim. Correu mal... o problema é que me tornei um cometa errante, perdido no espaço, passando apenas de tempos a tempos perto do Sol, sentindo apenas calor nesses momentos... A cada correcção que faço da minha orbita, apercebo-me que apenas mudo ligeiramente o angulo, e que não consigo descrever uma trajectória circular, centrada... Talvez nem tenha vontade disso... Um cometa vê muito mais, têm uma multitude de prespectivas, e percorre muito mais distancias que um planeta... quase sai fora do sistema solar e retorna, ciclicamente... Talvez a principal diferença entre mim e um cometa seja a minha falta de regularidade, mas também sinto o tempo como não linear, os dias não demoram todos o mesmo tempo...
Sinto-me cansado de tudo isto, e no entanto amo a vida. Sinto-me desesperado, no entanto tenho esperança. Sinto-me frio, mas sou capaz de irradiar calor em todas as direcções. Estas contradições constantes, perturbam-me, fazem-me tropeçar, e não saber bem que direcção tomar...
Temo ilógicamente tanta coisa, mas penso que o que temo mais sou eu mesmo. Temo falhar e por isso não tento. Não sei como viver, no entanto vou sobrevivendo, um dia de cada vez, sempre preocupado com o futuro, com o que sentem os que me rodeiam, deixando-me algumas vezes para ultimo plano. É então que me dá ataques de egoismo, centrando tudo em mim, e fico irado por o mundo não ser como eu quero... Que direito tenho eu de protestar? Que faço eu para mudar tudo isto? Nada... Penso... sinto... mas não faço nada...
Mais um cigarro... o som do isqueiro é já tão familiar... o queimar da primeira golfada de fumo... que reconfortante que é... estes sim são todos iguais, sem surpresas... sabem todos ao mesmo... à morte lenta... ao gastar do folêgo que jamais se vai recompor...
Pergunto-me até quando vou continuar a vaguear pelos espaços, pelos vazios...
A resposta é simples mas vaga... "Não sei..."
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