terça-feira, 20 de maio de 2008

Cego, surdo e mudo...

Acordou com um raio de luz que escapava por entre os buracos do estore que não estava totalmente fechado a incidir-lhe no rosto.
Algo não estava bem... o silêncio era demasiado, era perturbador...
Levantou-se e dirigiu-se como de costume à casa de banho. Meio ensonado pegou na escova dos dentes tão familiar. Era normalmente o primeiro objecto em que pegava se não contasse com o botão que silenciava o despertador. Nesse momento ocorreu-lhe que não tinha acordado com o despertador, e pensou que estaria atrasado. Colocou o dentífrico como de costume da direita para a esquerda, suavemente, e voltou a colocar a tampa no tubo.
No instante em que aproximou a escova da boca, reparou que não a podia abrir. Em pânico tentou abrir de novo a boca, e apercebeu-se que seus lábios não existiam. Esfregou bem os olhos, para se assegurar de que não era uma alucinação... Não havia qualquer orifício nessa zona apesar de conseguir ver o maxilar a mexer. Era como se seus lábios tivessem sido soldados na perfeição um ao outro. Não havia sequer sinal que tivessem alguma vez existido, nem sequer uma leve marca ou cicatriz. Como era possível tal coisa?!
Ao observar melhor, reparou que também as suas orelhas tinham desaparecido. Procurou, procurou, e também não havia sinal de algum dia terem existido. O lugar onde antes tinham estado era agora perfeitamente liso, sem qualquer orifício por onde o som pudesse entrar. Um acesso terrível de pânico tomou conta dele... tentou acalmar-se, de início sem qualquer sucesso...
Voltou para o quarto, sentando-se do lado esquerdo da sua cama, observando os raios de luz que entravam pelo estore, agora com um ângulo diferente. O silencio continuava esmagador. Notou o quarto mais escuro, o que era estranho... Lentamente começou a aperceber-se que a escuridão começava a tomar conta dele, a envolve-lo friamente e sem piedade. Em poucos minutos deixou de ver o que quer que fosse além de uma escuridão pouco natural, gelada...
Sem compreender o que se passava, cada vez mais assustado, penso ser aquilo um pesadelo, mas ao por-se de pé de novo, tropeçou num dos tapetes do seu quarto e caiu dolorosamente sobre a cadeira onde todas as noites colocava a roupa, cuidadosamente dobrada, que havia escolhido para vestir no dia seguinte. Não isto não era um pesadelo... a dor era bem real...
Encolheu-se num canto a chorar. Nem tanto pela dor física, mas pelo seu infortúnio cego, surdo e mudo... e lentamente desapareceu da existência...

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